Gandam
me entregou algumas frutas para comer na viagem, de cerca de doze horas de caminhada,
até a cidade de Arzel. Nós levantamos acampamento e, antes do meio-dia,
partimos.
Com
uma de minhas novas espadas na bainha em minha cinta e com a outra em minhas
costas, eu me sentia como um daqueles personagens de historias apelões, que
matam o dragão fazedor de viúvas com um só ataque. Ainda bem que não
encontramos nenhum dragão no caminho, se não... Eu teria sido estripado!
A
viagem foi tranqüila, com apenas algumas paradas para descansar, tomar algum
ar, comer alguma coisinha, beber água, encher os cantis e voltar a caminhar.
Tentei
aprender mais sobre meu passado com Gandam, mas ele dizia somente que avia me
contado tudo o que se lembrava. A única coisa que me disse foi a respeito de um
comentário de meu pai. Parece que ele disse que Gandam possuía as dicas para
responder minhas perguntas, porem ele só teria as respostas em si conforme
nossa historia juntos se desenrolasse e novas perguntas surgissem.
Perguntei
também sobre o comentário de minha mãe a respeito dos erros da espécie de
Gandam, porem isso também era um mistério para ele, assim como o destino à
nossa frente.
Por
volta das seis horas a noite caia na floresta e nós montamos acampamento. Na
manhã seguinte, retomamos a viagem.
Era
quase meio-dia quando nós chegamos à entrada sul de Arzel, e eu admito que,
para quem nunca esteve em uma cidade antes, começar por aqui era bom e ruim ao
mesmo tempo.
A
entrada sul é o pólo comercial da cidade. Aqui tem gente vendendo de tudo, dês
de mapas de todos os lugares e espadas de todos os tamanhos e formas, até a
mais recente versão do Windows Medieval Player! Mas não foram os produtos que
me chamaram a atenção.
No
meio de toda aquela confusão, daquele barulho incessante, daquela mistura de
cheiros, cores e rostos, do frenesi e da ansiedade que tomavam conta de mim,
pude perceber que meu fardo ficara mais leve. Intrigado, verifiquei meus
equipamentos e percebi que a espada em minhas costas sumira!
Enquanto
olhava ao meu redor, procurando minha espada, parecia que os sons do mercado
ficavam mais baixos. As pessoas passavam mais devagar e as coisas perdiam as cores.
Quando
me virei novamente, pude ver, correndo em meio a um mercado em câmera-lenta, um
homem carregando minha espada.
-
Gandam, ali esta ele!
-
Deixe isso comigo.
Gandam
retirou de sua ojava uma única flecha, pegou seu arco, mirou, murmurou alguma
coisa em élfico e, sem pensar duas vezes, disparou a flecha, bem no meio da
multidão!
A
flecha avançava rápido, desviando graciosamente das outras pessoas, como um
tubarão perseguindo a presa em u8m mar de inocentes, seguindo em direção do
homem que carregava minha espada.
“Tchuck”
Com
um ruído surdo, a flecha se enterrou no ombro do bandido. Nesse instante, corri
em sua direção.
Parecia
que o mercado estava esvaziando, que o numero de pessoas ficava menor, à medida
que eu me importava menos com elas e mais com o ladrão de minha espada.
Não
demorou muito para que eu alcançasse o homem. Porem, antes que eu pudesse
pensar em fazer qualquer coisa, outros dois homens surgiram do meio da multidão
e se puseram ao lado dele.
Há!
Dois bandidos aparentemente pouco fortes e destreinados, e um terceiro caído,
quase sem condições de lutar. Seria fácil para Gandam e eu.
- Vamos mostrar para eles o que da
mexer com a gente, certo Gandam?
Quando
me virei para ver onde Gandam se encontrava, percebi que, o que para mim foi uma
rua livre e fácil de atravessar, para Gandam era um desafio quase
intransponível. Um labirinto vivo, com paredes móveis que pareciam não querer
que ele me ajudasse.
Tive
tempo apenas para perceber que lutaria sozinho e que o desafio acabava de ficar
um pouco mais difícil, até que os dois bandidos que estavam de pé me atacassem
ao mesmo tempo.
Um
dos homens corria um pouco mais rápido e me atacou primeiro.
Agradeço
até hoje pelo treinamento que Gandam me dera, pois pela postura dos atacantes,
e pelo modo como avançavam, pude prever seus movimentos.
O
primeiro homem, localizado à minha esquerda, iria me atacar com um golpe na
vertical, e o segundo, o que era mais lento, tentaria um ataque na horizontal
na altura do meu peito.
Esperei
até o ultimo momento e, com um passo para trás, virei meu corpo para o lado e
pude ver o meu reflexo na lamina que passava a poucos centímetros do meu rosto. Foi ai que me lembrei do segundo bandido!
Quase
não tive tempo de reunir a força necessária para dar um salto e jogar o corpo
para trás, dando um salto mortal (literalmente!) sobre a espada do segundo
bandido.
Ao
me recuperar, assisti um dos homens sendo golpeado pelo outro.
Infelizmente,
o golpe não causou muito estrago, tendo em vista uma proteção leve que eles usavam
por debaixo das roupas. Apesar disso, tive tempo suficiente para correr até o
terceiro bandido que, preocupado com a flecha em seu ombro, não viu, voando
como um pássaro, meu pé indo em direção a sua cabeça.
O
home, agora desmaiado, não ofereceu resistência enquanto eu pegava minha espada
de volta.
Com
minha espada em mãos, a preocupação em tela de volta passou, agora eu só estava
muito bravo.
A
fúria percorria meu corpo, fervendo meu sangue e me fazendo sentir como se eu
fosse indestrutível! Eu sentia meus músculos mais fortes, meus pés mais rápidos
e meus sentidos mais aguçados. Mas, apesar disso, só uma coisa passava na minha
cabeça: vingança!
-
Ninguém rouba de mim o único presente de meus pais!
Gandam,
que lutava para atravessar o mercado sem machucar ninguém, havia cruzado quase
a metade do caminho. Só que agora eu não precisava mais de ajuda.
Os
dois bandidos atacaram novamente. Nessa nova ofensiva um dos bandidos ainda
estava um pouco atordoado com o ataque de seu amigo, então o outro atacou
primeiro.
Pude
ver sua espada vindo em minha direção, só que desta vez eu não queria só me
esquivar. Com a espada recém recuperada em minha mão esquerda, defendi o
ataque. Enquanto nossas laminas pairavam sobre nossas cabeças desembainhei
minha outra espada. Meu primeiro golpe o atingiu no peito fazendo com que ele
recuasse um passo. Com a minha espada esquerda, que agora estava livre de sua
espada, dei o segundo e ultimo golpe, uma estocada no peito que encerrou a
batalha.
Eu
sentia o calor do sangue respingado em meu rosto e pude perceber o momento em
que o brilho da vida deixava o olhar desesperado do homem que engasgava com o
próprio sangue.
O
prazer de matá-lo preenchia meu corpo, porem, apesar de satisfeito com o que
acabava de ver, meu trabalho ainda não estava terminado. Sobravam dois, e eu
queria suas vidas.
Enquanto
o segundo bandido corria em minha direção, pude perceber que o terceiro
acordava.
Como
é possível de se esperar, de uma pessoa destreinada e apavorada, o bandido
corria em minha direção com a espada erguida, o que me permitia prever seu
ataque que viria de cima. Juntando minhas espadas em “V” defendi o ataque.
Girei o corpo rapidamente, arrancando a espada de suas mãos e a atirando no
outro homem que já se encontrava de pé.
Desarmado,
o bandido tentou fugir. Coisa que eu não permitiria. Mas também não poderia
matá-lo pelas costas.
Desferi
um golpe no ar e pude sentir uma onda de energia que aqueceu meu peito e
percorreu meu braço até minha espada. A onda de energia percorreu o espaço que
nos separava como uma lamina de luz branca e o atingiu nas costas lançando-o ao
chão, não pelo impacto, mas pela dor do corte que agora lhe atravessava as
costas.
Fui
até o local onde ele estava caído e apontei minha espada para o seu peito.
-
Por favor, tenha piedade! – implorou o bandido.
-
Vocês tentaram tirar de mim a única coisa que eu tenho dos meus pais. Você não
merece piedade, morra com honra!
Levantei
meu braço e ataquei.
-
Brazem! Pare...!
Gandam
agarrou o meu braço e impediu meu ataque, mas quando eu olhei para ele, ele
soltou meu braço e deu um paço para traz. Pude ver, pelo transtorno em seu
olhar, que alguma coisa estava muito errada.
-
Brazem... Seu rosto!
Olhei
meu reflexo em uma de minhas espadas e o que eu vi me assustou tanto que me fez
derrubar minhas armas.
Meu
rosto, que há cinco minutos era vivido como o de qualquer rapaz na minha idade,
agora era branco, como o rosto de um cadáver. Meus olhos não eram mais
castanhos, eram de um tom de amarelo que incitava medo a quem olhasse. E para
completar minha nova aparência, uma tatuagem de guerra enfeitava meu rosto, se
é que se pode chamar de enfeite uma marca tribal que cobria quase toda minha
face!
Enquanto
sentia o sangue pulsando, correndo dentro de mim como fogo liquido, tão vivo
quanto eu ou você, eu via aos poucos o numero de pessoas que me olhavam
aterrorizadas.
O
mercado todo, que há alguns instantes parecia um deserto, agora era uma centena
de rostos petrificados de medo.
Eu
estava tão surpreso com a multidão e tão assustado comigo mesmo que, ainda que
eu tivesse visto, não poderia ter feito nada para impedir o bandido que ainda
estava vivo, de fugir por entre a multidão.
De
repente, um mal estar tomou conta de mim. Senti um calafrio terrível, que levou
toda minha energia e me fez desabar no chão. Teria vomitado, se meu estomago
não estivesse vazio, de tamanho mal estar. A ultima coisa que me lembro é de
ver Gandam correndo em minha direção e do som das batidas do meu coração, que
era mais alto que o barulho da multidão do mercado.
Quando
acordei eu só sentia duas coisas:
A
primeira era dor. Uma dor horrível em cada centímetro do meu corpo. A segunda
era fome, muita fome.
-
Você está bem Brazem?
-
Mais ou menos. Estou com muita dor de cabeça e não me lembro muito bem de
ontem.
-
Você matou dois homens, feriu um terceiro e aterrorizou metade do mercado.
A
principio, eu não pude acreditar no que Gandam me contava. Mas conforme ele
avançava na historia, lentamente minhas memórias retornavam. Eu me lembrava da
raiva, do poder, da dor e, o que mais me perturbava, minha aparência.
-
Mas o que diabos foi aquilo?!
-
Brazem. Não sei se foi correto lhe trazer até a cidade.
-
O que? Como assim? Esta querendo dizer que meu lugar é na floresta, vivendo
como um animal?! – Eu não via problema em viver do modo como fui ensinado por
Gandam, levando uma vida simples na floresta. Porem, aquele comentário me
deixou com um pouco de raiva.
-
Não é isso que eu quero dizer Brazem. Acho que você não deveria passar por
certas coisas. Afinal de contas, sou seu tutor, seu pai substituto. E como um
pai, não gosto de ver meu filho naquele estado...
-
Mas, o que em nome dos deuses aconteceu comigo Gandam? Eu me lembro de ter
sentido mais raiva do que nunca antes em toda a minha vida. Eu tive prazer em
matar aqueles homens. Agora, quando penso nisso, sinto medo de mim mesmo! Por
pior que tenha sido o ato deles, roubando o único presente de meus pais para
mim, eles não mereciam o que eu fiz.
-
Brazem. Eu acho que, quando eles roubaram suas espadas, algo dentro de você se
libertou. A raiva fez você agir de um jeito que você nunca havia agido antes. E
esta mesma raiva foi o gatilho.
-
O gatilho de que!
-
Brazem. Você teve um ataque de fúria. E acredito que não seja somente isso. Eu
acredito que você tenha sido tomado pela fúria guerreira.
-
Fúria guerreira? Mas o que isso quer dizer?!
-
Eu nunca havia visto isso pessoalmente, mas a marca que apareceu em seu rosto
durante o ataque não me deixa duvidas. Você carrega a mancha da fúria, a marca
do guerreiro insaciável e brutal. Quando alguma coisa te tira do serio você
vira uma maquina de guerra. Seus sentidos ficam mais aguçados, seus olhos só
vêem o que é importante dentro da batalha. Sua força é aumentada, assim como
sua agilidade e resistência. Você fica quase invencível.
-
Puxa! Então isso é ótimo!
-
Não fique tão animado assim Brazem, isso não é um dom, mas sim uma maldição!
Durante a fúria você perde o controle e a razão. Sua capacidade de sentir culpa
é substituída por uma Sade insaciável de sangue e uma vontade de matar
incontrolável. Sua noção de certo e errado acaba e você age por instintos muito
primitivos. Você desconhece a piedade e só pensa em matar tudo e todos que
entrarem em seu caminho. Foi muita sorte, mas até mesmo eu era um alvo seu
ontem. Ainda não sei o que fez você não me atacar.
Eu
estava chocado. Como aquilo permaneceu dentro de mim todos esses anos e eu nem
sequer duvidava disso. Eu era um animal perigoso e não podia confiar mais em
mim mesmo!
-
Mas isso não é motivo para tanta preocupação meu jovem Brazem – Disse Gandam tentando
tornar menos pesado o meu fardo – Por hora vamos procurar manter você longe de
encrenca e procure ficar calmo. De agora em diante, pode deixar que eu resolvo
nossos problemas.
-
Hum. Tudo bem, mas... Mas como eu adquiri essa maldição?
-
Eu não sei Brazem. Tudo sobre você é um mistério para mim também. E o seu
ataque de fúria não era como os ataques que eu já ouvi falar. As suas mudanças
de aparência não se encaixam no quadro de fúria. Parece que há algo mais que
nós não sabemos. Parece-me que muitas das respostas se perderam com seus pais.
Mas fique calmo, faremos o possível para descobrir o máximo sobre você, afinal
de contas, seu amigo elfo aqui tem seus próprios meios hahaha.
Após
esta animada conversa, Gandam sugeriu que nós déssemos uma volta para nos
distrairmos, o que foi um pouco difícil com todos do mercado olhando para nós.
-
Acho que você não causou uma boa primeira impressão Brazem – Disse Gandam
caçoando de mim.
-
É verdade. Porem a cidade também não me causou uma boa primeira impressão –
disse eu, colocando a mão em minhas espadas – Quanto tempo mais ficaremos aqui?
-
Acho que mais uns dois dias. Assim terei tempo de te mostrar a cidade e, quem
sabe, mudar a sua opinião sobre ela.
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