Os
primeiros raios de sol, que mal penetravam minha barraca, foram o suficiente
para me acordar. Dei uma boa esfregada nos olhos para me livrar do que ainda me
restava de sono e sai da barraca.
-
Ah! Finalmente você acordou - Disse Gandam, tentando me aborrecer como sempre
fazia.
A
manhã ainda estava um pouco fria. O sol, aos poucos, começava a dissipar a
neblina e a evaporar as gotas de orvalho, o que deixava o ar úmido e com um
cheiro característico de um amanhecer no bosque.
Gandam
se aquecia próximo a uma pequena fogueira que havia feito no centro do nosso
acampamento.
- Sente-se, coma uma fruta. - disse ele,
apontando um lugar próximo a uma cesta de frutas frescas.
-
E então, esta pronto para mais um dia de viagem?
Ele
me olhava com o mesmo olhar sereno e o mesmo sorriso bobo de sempre. Porém,
apos ele comentar sobre o templo da redenção, e eu perceber que mal conhecia o
homem que havia me criado, eu comecei a perceber algo escondida atrás de sua
aparência serena e brincalhona.
Era
como se agora eu o olhasse com uma desconfiança que eu nuca havia tido.
Desde
quando nasci, Gandam foi a única pessoa que eu conheci. Ele foi meu pai, minha
mãe e meu mestre.
Eu
levava uma vida simples. Não havia motivos para eu desconfiar dele ou de
qualquer outra coisa, o que me manteve um pouco inocente.
Porém,
apesar de ser inocente, eu não era tolo, e aprendia rápido.
Era
como se agora eu pudesse ver, dentro de seus olhos, algo que confirmava o que
eu sempre soube. Porem ia alem de somente me confirmar que ele carregava uma
tristeza secreta. Bem lá no fundo, bem escondido, eu via que o que ele
carregava parecia ser bem maior do que eu imaginava.
Apesar
de ficar incomodado com aquilo, eu sentia que não era hora de tocar nesses
assuntos e decidi esperar.
Sentei-me
e peguei uma fruta da cesta.
Durante
a hora seguinte, nós conversamos sobre coisas triviais como a diferença da
comida que se tinha em um bosque e a variedade de coisas estranhas e, algumas
vezes, deliciosas que eu havia experimentado na cidade até que:
“Grrrr”.
A
conversa parou. O rosnado veio da floresta. Era um som baixo e abafado, como um
animal se preparando para atacar.
Uma
pessoa normal não teria ouvido, porém Gandam era um elfo e eu era muito bem
treinado.
-
Brazem. Por favor, me diga que isso foi o seu estômago!
Porém,
para o descontentamento de Gandam, a resposta também veio da floresta.
-
Ahhhh!
-
Brazem! Vamos!
Dizendo
isso, Gandam jogou para mim, minhas espadas que, até agora, eu não havia notado
que estavam com ele. Muito pelo contrário. Eu as havia deixado dentro de minha
barraca na noite anterior.
Com
o arco em punho - que eu também não faço idéia de onde ele tirou, pois quando
estávamos sentados, não havia nada disso com ele - Gandam correu na direção do
grito.
Corremos
durante aproximadamente dez minutos sem escutar mais nada, nem gritos da mulher
ou rugidos da criatura. Pela distância percorrida, deduzimos que nos ouvimos o
rugido da criatura enquanto ela passava pelo nosso acampamento e ia em direção
ao outro.
Porém,
o que nos vimos quando chegamos superava nossas expectativas.
O
acampamento havia sido tomado por três orcs.
À
primeira vista, um orc é uma criatura assustadora. Imagine algo com quase três
metros de altura e musculoso como um touro. Sua pele cinza-azulada é grossa
como couro reforçado, o que o tornava resistente a temperaturas altas e baixas
e difícil de ferir.
Com
garras poderosas, dentes afiados e um hálito insuportável, enfrentar um desses
já seria muito ruim. Quem diria então, enfrentar três.
Apesar
de nossa chegada ter sido pouco silenciosa, já que os arredores do acampamento
estavam repletos de jarras quebradas e pratos e etc. parecia que eles não
haviam notado nossa presença. Na verdade, eles pareciam estar muito mais
interessados no que estavam fazendo do que em dois viajantes deliciosos.
Aparentemente,
eles disputavam a posse de algo. Algo não, um pequeno animal.
Apos
muitos tapas e empurrões, um deles saiu vitorioso e, com orgulho, levantou seu
prêmio. Era um pequeno gatinho branco com um olho verde e o outro azul.
Ele
aproximou o gatinho de sua boca grande e fedorenta que agora salivava ansiosa
pelo petisco. E foi nesse momento que nós decidimos agir.
Por
ter ganhado a disputa, o orc com o gatinho parecia ser o mais poderoso. Graças
ao pequeno animal, ele também era o mais distraído.
Gandam
respirou fundo, mirou e disparou. A flechada foi tão forte que o movimento da
corda do arco fez com que as folhas secas que estavam aos nossos pés, fossem
lançadas acima de nossas cabeças!
Gandam
havia me explicado sobre aquela técnica. Ele a chamava de morte súbita, pois a
flecha penetrava entre a segunda e a terceira vértebra, rompendo a espinha, a
medula e todas as outras ligações. Era como apertar o botão de desligar o corpo,
uma morte limpa, rápida e indolor.
Corri
na direção deles e, usando o corpo do orc morto, que ainda estava caindo, como
rampa, saltei. Aterrissei agachado entre os dois orcs, que estavam tão
surpresos que não conseguiriam defender meu ataque.
Com
um giro rápido, me levantei com os braços abertos e as espadas prontas. Estava
a poucos centímetros de distância deles e pude sentir o momento em que as
lâminas fizeram contato com suas peles cinza-azulada.
Porém,
o que deveria ver sido um ataque devastador, fez apenas pequenos arranhões,
para meu espanto e para a fúria das criaturas.
Um
dos orcs fez um movimento súbito e violento, me atingindo com as costas de sua
mão e me atirando contra uma árvore. Antes que eu pudesse me recuperar, os orcs
vieram em minha direção. Mas eu não estava lutando sozinho.
Com
uma flechada certeira, Gandam atravessou o tornozelo de um dos orcs. A fera
caiu de joelhos e, quando sua mão tocou o chão, raízes grossas cresceram em
volta dela e o agarraram, prendendo-o ao chão.
Ao
perceber que Gandam também fazia parte da batalha, o outro orc avançou em sua
direção.
Gandam
respirou fundo e disparou outro tiro carregado, uma flechada com força
suficiente para atravessar a pele grossa do animal.
No
entanto, desta vez a fera antecipou o golpe e, com um passo para o lado,
desviou da flecha no último instante. Mas Gandam ainda tinha alguns truques na
manga.
Com
um movimento de sua mão, a flecha fez uma curva e acertou o orc no pescoço,
matando-o exatamente da mesma forma que o primeiro.
Vendo
seus companheiros caídos, o último orc foi tomado pela fúria.
Com
uma força tremenda, ele arrancou as raízes do chão e, usando os braços para
compensar o pé imobilizado, ele correu em minha direção.
Ele
saltou sobre mim e iniciou uma sequência de ataques furiosos e devastadores.
Apesar
de seu tamanho, a criatura era incrivelmente ágil. Por pouco eu conseguia me esquivar
de seus ataques, que destruíam árvores, esmagavam pedras e abriam buracos no
chão conforme erravam seu alvo.
Agachei-me
para desviar de seu primeiro golpe, um ataque lateral que fez uma árvore em
duas como se não fosse nada.
Nos
segundos seguintes eu me agachei, pulei, rolei, girei e corri para tentar
desviar das sequência de ataques.
Percebi
que Gandam parecia estar um pouco cansado, talvez até cansado demais para outro
ataque concentrado. Porem ele respirou fundo e lançou outra flecha, tentando
pegar o orc desprevenido, já que toda a atenção do monstro era exclusivamente
minha.
Mas
ao contrario do que nós dois poderíamos imaginar. O orc desviou da flecha com
um giro e, antes que Gandam pudesse fazer a flecha retornar, a criatura aproveitou
a força do giro para atirar uma pedra do tamanho de um melão direto na cabeça
de Gandam.
Devido
à grande velocidade da pedra, Gandam não teve tempo de se esquivar
completamente. Por muito pouco, a pedra não o acertou por completo e esmagou
sua cabeça. Mas o impacto foi o suficiente para deixá-lo desacordado.
Percebendo
que esta poderia ser minha ultima luta, tentei invocar minha maldição e entrar
em fúria. Mas esse é o problema das maldições: elas não se manifestam quando
nós queremos! Eu estava mais assustado do que com raiva, logo, o mais perto de
um ataque de raiva que eu poderia chegar, seria se eu tivesse um chilique!
Coisa que não me ajudaria em nada, diga-se de passagem.
Apesar
de todo meu treinamento com Gandam, eu percebia que eu estava preparado para
enfrentar tudo, menos minha morte! E o fato de não ter o meu melhor amigo, meu
mestre e meu pai reserva do meu lado, também não me ajudava muito.
Infelizmente,
o que me trouxe de volta para o mundo real não foi uma brincadeira sem graça do
Gandam. Foram as garras do orc rasgando meu peito que me lembraram de onde eu
realmente estava: encurralado entre um monstro gigante e furioso e uma arvore.
Em
uma ultima tentativa eu reuni toda a minha força e ataquei a criatura. Minhas
espadas entraram até a metade na barriga do orc. Porem, nem mesmo isso podia
pará-lo.
O
orc me arremessou para longe. Eu atravessei uma das tendas do acampamento e cai
encima dos restos da fogueira.
Atordoado,
desarmado, ferido e vendo minha morte correndo em minha direção, com três
metros de altura, duzentos quilos e minhas espadas cravadas na barriga, eu já
me preparava para o pior.
A
criatura sentia meu medo, e com isso salivava cada vez mais. Como se o suor do
medo deixasse a carne da vitima mais saborosa.
Tentei
me levantar, mas meu corpo foi tomado por uma dor alucinante. Algo que começava
nos cortes feitos pelo orc, se espalhava pelo meu peito e percorria todo meu
corpo.
Se
as garras da criatura estavam envenenadas ou se era somente a dor de ter o
peito rasgado por um monstro eu não sabia dizer. Porem, agora já era tarde para
tentar descobrir
O
orc já estava tão perto de mim que eu já conseguia sentir o seu bafo quente e
fedido em meu rosto.
Gandam
e eu erramos em pensar que poderíamos ter derrotado as criaturas sozinhos. E esse
erro custaria nossas vidas.
Ele
se preparou para atacar. Já não estava mais tão nervoso, pois tinha certeza de
sua vitoria. Levantou o braço acima de sua cabeça e sua mão tapou uns poucos
raios de sol, que atravessavam a copa das arvores, fazendo sombra em meu rosto.
Agora
que o sol não me incomodava mais, pude relaxar minha vista e aceitar meu
destino. Pude ver, em câmera lenta, os momentos seguintes.
Ele
desceu seu braço, suas garras vinham em minha direção, e um raio branco voador
o atingiu na cara e o derrubou para traz!
O
orc rolou pelo chão destruindo o que havia restado do acampamento e se pondo
novamente em seus pés.
Ele
virou em minha direção e pude ver o que o havia atacado e que ainda se
encontrava agarrado firmemente em seu rosto.
O
pequeno gatinho enterrava cada vez mais fundo as garras no rosto da criatura
que gritava e rodopiava de dor.
O
orc tropeçou em uma raiz, e caio. Percebi a chance única que o bichano havia me
dado e, sem pensar duas vezes, reuni toda a minha energia e corri para cima do
monstro.
Pisei
em sua perna e saltei em sua barriga. Agarrei minhas espadas e as arranquei.
A
criatura deu um urro de dor tão alto que o gatinho pulou para fora de sua
cabeça, o que me deu um ângulo de visão claro de seu pescoço.
Ele
tentou levantar, mas antes que ele percebesse, eu cortei sua cabeça com minhas
espadas.
Dei
um pequeno salto para traz para sair de cima de seu corpo. A batalha havia
acabado.
Respirei
aliviado e a dor em meu peito voltou tão forte que cai. Tentei me apoiar em
minha espada, mas o mundo a minha volta era tomado rapidamente pelas trevas. Pude
ver o gatinho correndo em minha direção e depois disso eu apaguei.
Murilo, está ficando ótimo, não vejo o momento de vc post a continuação bjs parabéns
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