Capitulo IV - Sobre gatos e orcs



Os primeiros raios de sol, que mal penetravam minha barraca, foram o suficiente para me acordar. Dei uma boa esfregada nos olhos para me livrar do que ainda me restava de sono e sai da barraca.

- Ah! Finalmente você acordou - Disse Gandam, tentando me aborrecer como sempre fazia.

A manhã ainda estava um pouco fria. O sol, aos poucos, começava a dissipar a neblina e a evaporar as gotas de orvalho, o que deixava o ar úmido e com um cheiro característico de um amanhecer no bosque.

Gandam se aquecia próximo a uma pequena fogueira que havia feito no centro do nosso acampamento.

- Sente-se, coma uma fruta. - disse ele, apontando um lugar próximo a uma cesta de frutas frescas.

- E então, esta pronto para mais um dia de viagem?

Ele me olhava com o mesmo olhar sereno e o mesmo sorriso bobo de sempre. Porém, apos ele comentar sobre o templo da redenção, e eu perceber que mal conhecia o homem que havia me criado, eu comecei a perceber algo escondida atrás de sua aparência serena e brincalhona.

Era como se agora eu o olhasse com uma desconfiança que eu nuca havia tido.

Desde quando nasci, Gandam foi a única pessoa que eu conheci. Ele foi meu pai, minha mãe e meu mestre.

Eu levava uma vida simples. Não havia motivos para eu desconfiar dele ou de qualquer outra coisa, o que me manteve um pouco inocente.

Porém, apesar de ser inocente, eu não era tolo, e aprendia rápido.

Era como se agora eu pudesse ver, dentro de seus olhos, algo que confirmava o que eu sempre soube. Porem ia alem de somente me confirmar que ele carregava uma tristeza secreta. Bem lá no fundo, bem escondido, eu via que o que ele carregava parecia ser bem maior do que eu imaginava.

Apesar de ficar incomodado com aquilo, eu sentia que não era hora de tocar nesses assuntos e decidi esperar.

Sentei-me e peguei uma fruta da cesta.

Durante a hora seguinte, nós conversamos sobre coisas triviais como a diferença da comida que se tinha em um bosque e a variedade de coisas estranhas e, algumas vezes, deliciosas que eu havia experimentado na cidade até que:

“Grrrr”.

A conversa parou. O rosnado veio da floresta. Era um som baixo e abafado, como um animal se preparando para atacar.

Uma pessoa normal não teria ouvido, porém Gandam era um elfo e eu era muito bem treinado.

- Brazem. Por favor, me diga que isso foi o seu estômago!

Porém, para o descontentamento de Gandam, a resposta também veio da floresta.

- Ahhhh!

- Brazem! Vamos!

Dizendo isso, Gandam jogou para mim, minhas espadas que, até agora, eu não havia notado que estavam com ele. Muito pelo contrário. Eu as havia deixado dentro de minha barraca na noite anterior.

Com o arco em punho - que eu também não faço idéia de onde ele tirou, pois quando estávamos sentados, não havia nada disso com ele - Gandam correu na direção do grito.

Corremos durante aproximadamente dez minutos sem escutar mais nada, nem gritos da mulher ou rugidos da criatura. Pela distância percorrida, deduzimos que nos ouvimos o rugido da criatura enquanto ela passava pelo nosso acampamento e ia em direção ao outro.

Porém, o que nos vimos quando chegamos superava nossas expectativas.

O acampamento havia sido tomado por três orcs.

À primeira vista, um orc é uma criatura assustadora. Imagine algo com quase três metros de altura e musculoso como um touro. Sua pele cinza-azulada é grossa como couro reforçado, o que o tornava resistente a temperaturas altas e baixas e difícil de ferir.

Com garras poderosas, dentes afiados e um hálito insuportável, enfrentar um desses já seria muito ruim. Quem diria então, enfrentar três.

Apesar de nossa chegada ter sido pouco silenciosa, já que os arredores do acampamento estavam repletos de jarras quebradas e pratos e etc. parecia que eles não haviam notado nossa presença. Na verdade, eles pareciam estar muito mais interessados no que estavam fazendo do que em dois viajantes deliciosos.

Aparentemente, eles disputavam a posse de algo. Algo não, um pequeno animal.

Apos muitos tapas e empurrões, um deles saiu vitorioso e, com orgulho, levantou seu prêmio. Era um pequeno gatinho branco com um olho verde e o outro azul.

Ele aproximou o gatinho de sua boca grande e fedorenta que agora salivava ansiosa pelo petisco. E foi nesse momento que nós decidimos agir.

Por ter ganhado a disputa, o orc com o gatinho parecia ser o mais poderoso. Graças ao pequeno animal, ele também era o mais distraído.

Gandam respirou fundo, mirou e disparou. A flechada foi tão forte que o movimento da corda do arco fez com que as folhas secas que estavam aos nossos pés, fossem lançadas acima de nossas cabeças!

Gandam havia me explicado sobre aquela técnica. Ele a chamava de morte súbita, pois a flecha penetrava entre a segunda e a terceira vértebra, rompendo a espinha, a medula e todas as outras ligações. Era como apertar o botão de desligar o corpo, uma morte limpa, rápida e indolor. 

Corri na direção deles e, usando o corpo do orc morto, que ainda estava caindo, como rampa, saltei. Aterrissei agachado entre os dois orcs, que estavam tão surpresos que não conseguiriam defender meu ataque.

Com um giro rápido, me levantei com os braços abertos e as espadas prontas. Estava a poucos centímetros de distância deles e pude sentir o momento em que as lâminas fizeram contato com suas peles cinza-azulada. 

Porém, o que deveria ver sido um ataque devastador, fez apenas pequenos arranhões, para meu espanto e para a fúria das criaturas.

Um dos orcs fez um movimento súbito e violento, me atingindo com as costas de sua mão e me atirando contra uma árvore. Antes que eu pudesse me recuperar, os orcs vieram em minha direção. Mas eu não estava lutando sozinho.

Com uma flechada certeira, Gandam atravessou o tornozelo de um dos orcs. A fera caiu de joelhos e, quando sua mão tocou o chão, raízes grossas cresceram em volta dela e o agarraram, prendendo-o ao chão.

Ao perceber que Gandam também fazia parte da batalha, o outro orc avançou em sua direção.

Gandam respirou fundo e disparou outro tiro carregado, uma flechada com força suficiente para atravessar a pele grossa do animal.

No entanto, desta vez a fera antecipou o golpe e, com um passo para o lado, desviou da flecha no último instante. Mas Gandam ainda tinha alguns truques na manga.

Com um movimento de sua mão, a flecha fez uma curva e acertou o orc no pescoço, matando-o exatamente da mesma forma que o primeiro.

Vendo seus companheiros caídos, o último orc foi tomado pela fúria.

Com uma força tremenda, ele arrancou as raízes do chão e, usando os braços para compensar o pé imobilizado, ele correu em minha direção.

Ele saltou sobre mim e iniciou uma sequência de ataques furiosos e devastadores.

Apesar de seu tamanho, a criatura era incrivelmente ágil. Por pouco eu conseguia me esquivar de seus ataques, que destruíam árvores, esmagavam pedras e abriam buracos no chão conforme erravam seu alvo. 

Agachei-me para desviar de seu primeiro golpe, um ataque lateral que fez uma árvore em duas como se não fosse nada.

Nos segundos seguintes eu me agachei, pulei, rolei, girei e corri para tentar desviar das sequência de ataques.

Percebi que Gandam parecia estar um pouco cansado, talvez até cansado demais para outro ataque concentrado. Porem ele respirou fundo e lançou outra flecha, tentando pegar o orc desprevenido, já que toda a atenção do monstro era exclusivamente minha.

Mas ao contrario do que nós dois poderíamos imaginar. O orc desviou da flecha com um giro e, antes que Gandam pudesse fazer a flecha retornar, a criatura aproveitou a força do giro para atirar uma pedra do tamanho de um melão direto na cabeça de Gandam.

Devido à grande velocidade da pedra, Gandam não teve tempo de se esquivar completamente. Por muito pouco, a pedra não o acertou por completo e esmagou sua cabeça. Mas o impacto foi o suficiente para deixá-lo desacordado.

Percebendo que esta poderia ser minha ultima luta, tentei invocar minha maldição e entrar em fúria. Mas esse é o problema das maldições: elas não se manifestam quando nós queremos! Eu estava mais assustado do que com raiva, logo, o mais perto de um ataque de raiva que eu poderia chegar, seria se eu tivesse um chilique! Coisa que não me ajudaria em nada, diga-se de passagem.

Apesar de todo meu treinamento com Gandam, eu percebia que eu estava preparado para enfrentar tudo, menos minha morte! E o fato de não ter o meu melhor amigo, meu mestre e meu pai reserva do meu lado, também não me ajudava muito.

Infelizmente, o que me trouxe de volta para o mundo real não foi uma brincadeira sem graça do Gandam. Foram as garras do orc rasgando meu peito que me lembraram de onde eu realmente estava: encurralado entre um monstro gigante e furioso e uma arvore.

Em uma ultima tentativa eu reuni toda a minha força e ataquei a criatura. Minhas espadas entraram até a metade na barriga do orc. Porem, nem mesmo isso podia pará-lo.

O orc me arremessou para longe. Eu atravessei uma das tendas do acampamento e cai encima dos restos da fogueira.

Atordoado, desarmado, ferido e vendo minha morte correndo em minha direção, com três metros de altura, duzentos quilos e minhas espadas cravadas na barriga, eu já me preparava para o pior.

A criatura sentia meu medo, e com isso salivava cada vez mais. Como se o suor do medo deixasse a carne da vitima mais saborosa.

Tentei me levantar, mas meu corpo foi tomado por uma dor alucinante. Algo que começava nos cortes feitos pelo orc, se espalhava pelo meu peito e percorria todo meu corpo.

Se as garras da criatura estavam envenenadas ou se era somente a dor de ter o peito rasgado por um monstro eu não sabia dizer. Porem, agora já era tarde para tentar descobrir

O orc já estava tão perto de mim que eu já conseguia sentir o seu bafo quente e fedido em meu rosto.

Gandam e eu erramos em pensar que poderíamos ter derrotado as criaturas sozinhos. E esse erro custaria nossas vidas.

Ele se preparou para atacar. Já não estava mais tão nervoso, pois tinha certeza de sua vitoria. Levantou o braço acima de sua cabeça e sua mão tapou uns poucos raios de sol, que atravessavam a copa das arvores, fazendo sombra em meu rosto.

Agora que o sol não me incomodava mais, pude relaxar minha vista e aceitar meu destino. Pude ver, em câmera lenta, os momentos seguintes.

Ele desceu seu braço, suas garras vinham em minha direção, e um raio branco voador o atingiu na cara e o derrubou para traz!

O orc rolou pelo chão destruindo o que havia restado do acampamento e se pondo novamente em seus pés.

Ele virou em minha direção e pude ver o que o havia atacado e que ainda se encontrava agarrado firmemente em seu rosto.

O pequeno gatinho enterrava cada vez mais fundo as garras no rosto da criatura que gritava e rodopiava de dor.

O orc tropeçou em uma raiz, e caio. Percebi a chance única que o bichano havia me dado e, sem pensar duas vezes, reuni toda a minha energia e corri para cima do monstro.

Pisei em sua perna e saltei em sua barriga. Agarrei minhas espadas e as arranquei.

A criatura deu um urro de dor tão alto que o gatinho pulou para fora de sua cabeça, o que me deu um ângulo de visão claro de seu pescoço.

Ele tentou levantar, mas antes que ele percebesse, eu cortei sua cabeça com minhas espadas.

Dei um pequeno salto para traz para sair de cima de seu corpo. A batalha havia acabado.

Respirei aliviado e a dor em meu peito voltou tão forte que cai. Tentei me apoiar em minha espada, mas o mundo a minha volta era tomado rapidamente pelas trevas. Pude ver o gatinho correndo em minha direção e depois disso eu apaguei.

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