Ignorando
os olhares e os murmúrios, os dias foram normais. Gandam me contou tudo sobre a
cidade e me mostrou o que ela possuía de melhor a me oferecer. As pessoas eram
gentis, apesar de eu poder sentir o medo em suas vozes. Compramos algumas
quinquilharias inúteis, porem muito legais, como um tal de espelho, que era
pedaço de prata polida que refletia minha imagem. Também compramos coisas muito
uteis, como uma pedra para amolar novinha e um objeto mágico que, de acordo com
o vendedor, vinha do futuro e tinha a incrível capacidade de criar fogo apenas
girando uma roda metálica localizada embaixo de uma tampa que se abria emitindo
“clink”. Porem o vendedor nos alertara que o aparelho, conhecido por um nome
diferente, algo como zibbo, possuía um numero limitado de chamas, podendo ser
utilizado somente algumas dezenas de vezes. Mesmo assim, fazer fogo tão rápido
e sem gastar nossas energias já era muito útil quando você esta há meses na
floresta ou em uma emergência.
Ao final de mais um dia de passeio a noite já
cobria a cidade e, assim como na floresta, Gandam me disse que a noite poderia
ser perigosa.
Retornamos
ao hotel e, como no dia seguinte iríamos seguir viagem para só Gandam sabe
onde, decidimos dormir o máximo possível. Foi ai que os sonhos vieram.
Eu estava em uma taberna, o tipo de lugar em
que todo tipo de gente se encontra pra fazer todo tipo de coisa enquanto bebe.
No meio de toda aquela confusão uma coisa me chamou a atenção. Um homem de meia
idade, vestido de maneira simples, mas que não diminuía seu ar de nobreza,
entrava no salão. O homem foi até o bar e, em voz baixa, disse ao atendente:
-Saudações.
Trago comigo uma mensagem, você sabe onde posso encontrar O Mensageiro?
-
E que tipo de mensagem é essa, caro peregrino?
-
Um beijo.
Por
mais estranho que possa parecer, eu havia entendido, e o taberneiro também,
pois ao som dessas palavras sua expressão mudou. De descontraído e
desinteressado, agora era um homem sério e pensativo.
Ele
analisou, calma e profundamente, o homem à sua frente e, apos um breve
silencio, disse:
-
Fale com o velho.
Fez
um sinal com a cabeça na direção de um velho que se sentava em um canto
qualquer do salão.
O
homem caminhou até a mesa do velho.
Era
uma mesa simples, limpa e bem iluminada. O velho, que aparentava estar um pouco
bêbado, trajava roupas simples. Sua barba mal feita, as unhas sujas e o mau
cheiro apontavam que ali, na frente do homem que havia viajado tanto para
encontrar O Mensageiro, estava um bebum qualquer.
Decepcionado,
o homem decidiu arriscar, afinal de contas, não tinha mais nada a perder, havia
chego até ali e a mensagem devia ser dada.
-
Com sua licença meu senhor, posso me sentar?
-
Hihihihaha. Mas é claro meu lindo jovem. Já faz tanto tempo desde a ultima vez
que alguém falou comigo que eu já pensava que somente estas moscas eram minhas
amigas. Quer saber o nome delas?
Sem
saber se o taberneiro o havia enganado ou se aquele velho poderia realmente
levá-lo até o mensageiro, o homem decidiu continuar a conversa.
-
Vou lhe pagar uma bebida. E então, meu caro senhor, vamos brindar com licor de
tâmara?
Esse
era outro código.
-
Hihihihaha, é assim que se fala meu jovem. Taberneiro, mais uma rodada, na
conta do rapaz aqui!
-
Por que me chama de ' meu jovem' - disse o homem um pouco incomodado - já tenho
mais de 40 anos!
-
Filho, na minha idade somente as árvores são mais velhas do que eu. Mesmo que
você tivesse 100 anos, ainda te chamaria de meu jovem... Hihihihaha, vamos
beber!
O
homem estava desconcertado. Aquele velho dizia ser tão velho quanto o próprio
tempo e mesmo assim não respondia os códigos corretamente. Talvez ele fosse só
um velho bêbado, talvez tudo tivesse sido em vão.
-
Não quero te fazer perder mais tempo meu jovem - disse o velho, apos tomar um
gole de licor - afinal de contas, você tem uma mensagem para entregar!
O
homem não podia acreditar! Bem ali, na sua frente, estava o Mensageiro.
-
Então o senhor é o Mensageiro, deve confessar que o julgava ser bem diferente.
-
Nem tudo é o que parece meu jovem, na minha profissão as aparências são muito
importantes. Mas, agora que já sabe quem eu sou, deixe-me saber quem você é.
O velho girou um anel que estava em sua mão
direita, e que até agora havia passado desapercebido, de modo que a pedra
ficasse virada para baixo, e estendeu a mão para cumprimentar o homem. Ele
sabia que o Mensageiro podia ser perigoso, mas tinha de arriscar.
Ao
tocar a mão do velho, um calafrio lhe percorreu o corpo. Ele sabia que agora,
de algum modo, o velho sabia tudo sobre ele!
-
Agora que já nos conhecemos podemos tratar de negócios. A quem a mensagem se
destina?
-
Uma poderosa feiticeira atormenta meu povoado. Ela precisa ser detida.
-
Meus serviços são caros, rapaz.
-
Dinheiro não é problema - disse o homem pondo um pequeno pacote em cima da
mesa. Ela tem que morrer!
-
Acalme-se meu jovem.
O
velho deu uma olhada discreta dentro do pacote.
-
Esta noite a mensagem será dada!
O
cenário se desfez do uma nuvem de fumaça deixando somente as trevas. Do meio da
escuridão surgiu um velho cego. Ele vestia roupas rasgadas e se apoiava em uma
bengala.
-
A proteção de seus pais esta chegando ao fim. O eclipse se aproxima. Antes dele
você tem que ser iniciado. Você tem que despertar Brazem. Cuide de seu
coração Brazem.
-
Brazem... Brazem...!
-
ACORDAAAA!
-
AAHHHHH
-
Hahahahaha
-
Gandam, você perdeu a cabeça?!
-
Você não acordava! E nos temos que ir.
-
E era mesmo necessária você me acordar gritando desse jeito?!
-
Não, mas foi muito divertido! Ande logo garoto, nos temos que partir.
-
Pra onde nos vamos mesmo?
-
Eu preciso passar no templo da luz, eu tenho que me consultar com os sábios a
respeito de... Uns assuntos ai, nada de mais.
-
Templo da luz?
-
É, o templo élfico da luz. É mesmo, nunca te contei sobre os templos. Há muitos
anos atrás, no principio do reinado, antes mesmo das grandes guerras, os elfos
governavam. Eles eram muito sábios e tinham poderes que hoje nem imaginamos.
Nessa época remota, eles construíram os grandes templos. Ninguém sabe ao certo
quantos templos foram feitos, por que, onde estão e qual seu poder ou
domínio. Dizem que, cada pessoa, conhece
somente os templos que deve conhecer e que é possível saber como uma pessoa é
pelos templos que ela conhece. Existem templos como o da água, o do fogo, o do
conhecimento e o da luz. Também existem templos mais obscuros como o templo da
dor, o das trevas e o da morte.
-
Quantos templos você conhece Gandam?
-
Quatro. O templo dos guardiões do
bosque, onde fui treinado nas artes de combate dos elfos; o templo da magia,
onde aprendi as artes mágicas em geral; o templo dos sábios e o templo da
redenção.
-
Redenção? Você esta tentando se redimir de algo?
Ao
ouvir esta pergunta sua expressão mudou. Seu olhar, agora sombrio, se perdeu
por alguns instantes em seus próprios pensamentos.
-
Se arrume logo - disse ele se levantando - temos que ir - e saiu antes que eu
pudesse dizer qualquer coisa.
Pensando
bem, eu não sabia quase nada a respeito dele. Dos seus 140 anos, eu mal
conhecia os últimos 20! Nossas conversas eram quase sempre a respeito do meu
treinamento: como sobreviver na selva, como utilizar armas, como fazer certas
magias e os mistérios da natureza. Quando falávamos sobre outra coisa, eram
sempre assuntos triviais, nada com muita importância.
Porém
eu sabia que podia confiar nele, meus pais confiavam tanto que me confiaram a
ele, e, pra mim, isso já era suficiente.
Decidi
não tocar mais naquele assunto. Quando ele estivesse pronto, e se ele quisesse,
ele me contaria.
Como
ordenado por Gandam que, apesar de meu amigo, ainda era meu mestre, terminei de
arrumar minhas malas e partimos.
Ainda
dentro da cidade, alguns minutos se passaram em total silencio. Ele não parecia
nervoso ou chateado, só estava quieto, perdido em seus pensamentos como ficava às
vezes. Eu, ao contrário, estava me sentindo péssimo.
Sabia que havia tocado em um ponto muito sensível, uma
ferida aberta. Poderia até ter ido longe de mais, afinal de contas, ninguém
procura redenção por nada.
-
Espere aqui - disse ele finalmente rompendo com o silencio - tenho que comprar
suprimentos. Será uma longa viagem até nossos destinos.
Pelo
jeito que ele falava parecia que ele se referia aos nossos destinos no sentido
literal, aos objetivos de nossas vidas, não ao lugar onde devíamos ir. Porém,
como eu ainda me sentia mal pelo ocorrido no hotel, achei melhor não comentar
nada.
Eu
estava em uma praça bem mais simples que as outras que eu havia visto pela
cidade. Esta não possuía inúmeras árvores em um gramado repleto de mesas de
madeira. Era algo como um círculo de
terra com 100 metros de diâmetro. Em baixo de sua única árvore, que mal
conseguia tapar os raios de sol, havia apenas um único banco, feito a partir de
um tronco. Porém, o que mais me chamava à atenção era o velho que nele se
sentava.
O
velho usava uma túnica simples, velha e um pouco gasta. Segurava uma bengala de
bambu e, apesar de estar com os olhos fechados, sua cabeça apontava na minha direção.
Movi-me alguns passos para o lado e ele me acompanhou com a cabeça. Agora eu
tinha certeza de duas coisas: ele era cego; e estava olhando pra mim!
No
minuto seguinte não havia mais nada! Nem Gandam, nem viagem, nem passado e nem
segredos. Só havia eu e o velho.
Eu
estava cara-a-cara com ele, perto o suficiente para saber que eu o conhecia. E
é ai que estava o problema! Eu fui criado por um elfo viajante, no meio de uma
floresta inóspita, como poderia conhecer aquele velho?!
Quando
ele começou a falar, eu imediatamente me lembrei de onde o conhecia. As marcas
da idade e a expressão em seu rosto, as roupas simples e rasgadas e a bengala
de bambu. Tudo se encaixava. Era ele. Era o velho do meu sonho!
Desde
a conversa com Gandam, eu havia me esquecido do sonho. Agora, enquanto
acordado, a realidade fazia questão de me lembrar dele. Porém, o mais
assustador não era ver um sonho vivo em minha frente, era ouvir o que ele tinha
a dizer. Apesar de ele mover a boca,
suas palavras pareciam sair de dentro da minha cabeça.
-
A aurora das trevas se aproxima. Seus pais falharam, Ele te encontrou. Para
renascer para a vida e não para a morte você deve encontrar os sábios do
destino antes do Sol Negro. Mergulhe até o terceiro anel da espiral dos
mundos...
-
Brazem?
Ao
ouvir a voz de Gandam eu parecia sair de algum tipo de transe. Eu ainda estava
no mesmo lugar onde ele havia me dito para esperar. O velho também estava no
mesmo lugar, porém parecia nem notar a minha presença.
-
O que foi Brazem? Parece que você viu um fantasma - O tom calmo e brincalhão já
estava de volta em sua voz, ele não estava mais chateado.
-
Gandam, eu tenho que te contar uma coisa. Na noite passada eu sonhei com aquele
velho. E agora, minutos antes de você voltar, ele estava aqui me falando coisas
sobre um sol negro e meus pais.
Nós
olhamos para o velho e, para nossa surpresa, ele tinha sumido! Olhamos em
volta. Porém ele não estava em lugar nenhum. Era impossível para um velho de
bengala sumir tão rapidamente. Aquela
parte da cidade estava quase deserta e qualquer rua que ele pudesse ter entrado
estava a uma boa distância da praça. Uma distância que, mesmo para mim, mesmo
andando rápido, levaria mais tempo para vencer do que o tempo que nos estávamos
ali conversando. Imagine então para um velho de bengala!
-
Brazem, eu entrei nessa loja, perguntei se eles tinham uma coisa e, como eles
não tinham, eu saí. Não se passaram nem 5 minutos. Você tem certeza de que isso
realmente aconteceu?
-
Você acha que eu estou inventando?!
-
Não Brazem, eu acho que você pode ter tido algum tipo de visão ou coisa
parecida. Seja lá o que for, era poderoso. E isso não é nada bom.
-
Como assim? O que isso quer dizer?
-
Quer dizer que nós temos que chegar ao templo da luz o mais rápido possível.
-
E por que você acha que era poderoso?
-
Porque eu vi também.
Não
sei o porquê, mas o tom de sua voz me deixou preocupado.
Enquanto
nos dirigíamos para a próxima cidade eu contei tudo o que eu havia sonhado e o
que o velho me dissera, o que parecia fazer tanto sentido para Gandam quanto
pra mim. Porém parecia que ele sabia de mais alguma coisa, sempre que esses
assuntos surgiam, ele me ouvia com atenção e certa preocupação, mas sempre que
eu perguntava alguma coisa ele sempre dava respostas vazias e mudava de
assunto, ou simplesmente dizia que não sabia.
E
assim passava o primeiro dia. Gandam decidiu revisar alguns de meus
ensinamentos sobre combate, magia e filosofia. Enquanto caminhávamos, ele me
mandava ficar em diferentes posturas de ataque e de defesa e me ensinava sobre
diferentes estratégias de batalha. Ele também me fez praticar algumas magias e
feitiços que eu já sabia e me ensinou alguns novos. Ele me perguntou sobre moral,
orgulho, honra e ódio. Essa ultima parte me deixou meio confuso, mas o mestre
era ele, não eu, e pra ele isso deveria fazer algum sentido, eu acho.
Ao
cair da noite nós montamos acampamento e Gandam sugeriu que fôssemos dormir
cedo, pois o dia seguinte seria cheio. Mal sabia ele que minha noite também
seria.
O
sonho começou em uma floresta tão densa que a luz da lua mal conseguia
atravessar a copa das árvores. O cheiro de terra molhada, o barulho das cigarras,
a umidade alta da noite fria, todos os sinais apontavam para uma noite tranqüila
Protegido
pelas trevas da noite, em um acampamento montado nos restos de uma árvore oca,
uma pessoa se esquentava perto de uma fogueira acesa em um buraco de cerca de
um metro de profundidade por 50 centímetros de largura, feita de tal modo que
somente o calor e não a luz da fogueira saísse do buraco.
O
lugar era o melhor esconderijo que eu já tinha visto. Oferecia conforto sem
comprometer a notoriedade. Parecia ter sido feito por um profissional na arte
de ser invisível quando quisesse. Ao me aproximar da pessoa pude perceber que
era um velho. Eu já estava ficando irritado. Parecia até que os velhos estavam
me perseguindo. Até agora metade das pessoas que eu havia visto eram velhos
sinistros!
Mas
havia algo de diferente com este. Ou devo dizer algo de familiar?! Ele era
diferente do velho cego, mas eu também o conhecia. Só tive tempo de pensar em
quantos velhos seria possível eu conhecer tendo passado minha vida toda na
floresta com Gandam, antes que o velho levanta-se e a pouca luz da fogueira que
escapava do buraco ilumina-se seu rosto. Agora eu o reconhecia. Era o velho dos
meus sonhos! Não o cego, o outro, da taberna. Ele se aproximou mais ainda da
fogueira, mas agora não me restava mais dúvidas. Realmente era ele, era o
Mensageiro.
Ele
sussurrou algumas palavras e uma rajada súbita de vento o atingiu. Enquanto
suas roupas se agitavam ao vento, elas mudavam de forma. O tecido de suas
roupas, que antes era de um algodão grosso feito para proteger do frio, se
transformava em um tecido leve e flexível, que mantinha a temperatura do corpo
sem comprometer a flexibilidade. Do seu peito, braços, cintura e pernas
apareciam cintos, bolsas e compartimentos para os mais diversos tipos de itens
e armas, desde frascos de poções até espadas e lâminas de arremesso.
Sua
túnica simples se transformava em um sobretudo diferente de tudo o que eu já
havia visto. Era um casaco grosso que ia dos pés a cabeça, coberto de desenhos
e símbolos que eu desconhecia.
O
vento parou. Em uma questão de segundos o velho que parecia não oferecer perigo
a uma mosca, agora tinha um ar sinistro a sua volta.
Agora
eu entendia o que era o mensageiro, ele era um assassino. Sua mensagem, o
beijo, era o beijo da morte.
Tentei
ver melhor seu rosto, porém cada vez que ele movimentava a cabeça, seu rosto
mudava! Parecia que de cada ângulo que se olhava ele possuía um rosto
diferente. Feições, traços e formas diferentes surgiam cada vez que ele era
iluminado pela fogueira.
A
única coisa que permanecia a mesma era a cor de seus olhos. Durante o tempo que
nós permanecemos na cidade eu vi olhos de todas as formas e cores. Porém, eu
nunca havia visto olhos como aqueles.
Sua
íris era de um branco-azulado que lembravam, não olhos, mas pequenos cristais
de quartzo adornados por uma fina borda negra com traços firmes, mais grossos
na base e que afinavam na medida em que iam de encontro à sua pupila, sem
tocá-la.
Pareciam
duas jóias, feitas à mão pelo mais habilidoso dos ourives, de tamanha sua
beleza.
Porém,
apesar dos olhos, nada mais tinha essa aparência e encanto. O homem possuía uma
presença forte, autoritária e superior. Somente por vislumbrar sua figura eu já
me sentia fraco, inútil, digno de pena até. E essa era a melhor parte.
Uma
aura sinistra o acompanhava, o ar era mais frio e seco ao seu redor. A cada vez
que eu respirava, parecia que um pouco de mim deixava meu corpo junto com o ar
que saia de meus pulmões. Era como se, simplesmente por estar na presença dele,
eu morresse aos poucos. Ele
retirou de um de seus bolsos, um pedaço de papel enrolado. Ele abriu o papel e
passou cerca de dois minutos observando o que parecia ser o mapa daquela
região.
Graças
às aulas de cartografia que eu tivera com Gandam, eu fui capaz de ler o mapa.
Nos estávamos em uma floresta que se estendia por mais vinte quilômetros até
chegar a um vasto campo aberto com cerca de dez quilômetros, que nos separava
da cidade. Próximo à cidade, havia um castelo circulado no mapa, o que devia
ser objetivo do assassino.
- Tenho mais três horas antes da meia-noite -
disse ele - até lá, tudo isso terá terminado.
Ele
falava como se, em menos de três horas, ele fosse atravessar a floresta, a
campina, chegar até o castelo e fazer o que tinha de fazer. O que era
claramente impossível.
Levaria,
no mínimo, um dia e meio para ele cruzar a floresta de dia. Durante a noite,
com as raízes das árvores, a vegetação densa e o terreno irregular, ele levaria
no mínimo dois dias. Foi ai que eu percebi o quanto estava errado a respeito
daquele homem.
Ele
enrolou novamente o mapa e o guardou em um de seus bolsos.
Durante os cinco
minutos seguintes ele ficou parado, de olhos fechados e completamente mudo.
Cheguei até a pensar que estivesse fazendo algum tipo de ritual. Porém, a
verdade era bem mais perturbadora.
-
Deuses, por favor, perdoem o que estou prestes a fazer.
Ele
estava rezando! Como um assassino de aluguel pode pedir perdão por matar
alguém.
Por
mais alguns instantes ele permaneceu ali, em sua prece silenciosa. Sua
concentração era tanta que, durante esse tempo, pude notar que sua aura maligna
havia desaparecido.
Ele
estendeu o braço na direção da fogueira e, ao fechar sua mão, as chamas se
apagaram. Em seguida, todo seu acampamento começou a se desfazer em galhos,
folhas e pedras. Era com se tudo que houvesse ali fosse feito a partir da
floresta.
Ele
vestiu o capuz do casaco fazendo com que seu rosto transmorfo fosse quase todo
coberto pelas sombras, com exceção de seus olhos que, apesar de não brilharem,
eram claramente visíveis. Parecia que as trevas nem sequer ousavam tentar
cobrir seus olhos, por mais densas e poderosas que fossem principalmente
durante a noite.
-
Esta na hora!
Com
essas palavras, a energia que ele emanava voltou. Porém, comparada a energia de
agora, a anterior não era nada. Eu me sentia completamente impotente, fraco e
indefeso. Parecia que o ar à minha volta queria me esmagar. Meu corpo havia se
tornado minha prisão. Estava tão pesado que eu tinha a sensação de que meu
próprio peso me mataria.
Era
como estar na presença do anjo da morte em pessoa!
O
homem deu alguns passos na direção da floresta a saltou para as trevas.
Como
um tubarão, nadando imponente e ameaçador pelo oceano, ele nadava nas trevas da
floresta cortando a noite como um vulto negro. A velocidade que ele se movia
era sobre-humana. Eu podia sentir a força do vento contra o meu rosto enquanto
ele desviava das árvores com giros em parafuso ou com pequenos movimentos de
suas mãos e pés, alterando sua rota enquanto planava, com a habilidade de um
ginasta olímpico.
Em
vinte minutos ele cruzou vinte quilômetros de floresta densa. Mais dez minutos
e ele chegou ao castelo.
Do
lado de fora era possível notar uma única luz acesa, no terceiro andar de uma
das três torres do castelo. Ele entrou por uma janela do segundo andar que
estava aberta. Com cautela ele atravessou algumas salas e corredores. Apesar de
vazio, o castelo não tinha nenhum tipo de armadilha ou segurança, o que
demonstrava uma enorme confiança de seu senhor. O assassino subiu uma escada e
se deparou com a porta entre aberta do aposento iluminado.
Cuidadosamente,
com uma de suas lâminas como espelho, ele espiou o interior do quarto. Pude ver
pouca coisa e identificar menos coisas ainda. Algo como uma mobilha antiga, uma
cama grande e umas estantes com objetos que eu não pude distinguir compunham a
paisagem do quarto.
Um
pequeno ruído veio de dentro do cômodo e foi o suficiente para que ele desse um
salto para traz e se escondesse nas sombras enquanto a porta se abria
vagarosamente.
O
que ele viu lá dentro foi o bastante para deixá-lo tão desconcertado que sua
aura maligna mais uma vez se dissipou, e em seu lugar, um olhar de espanto se
desenhou em sua face.
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