Capitulo III - Sonhos sobre velhos e assassinos



Ignorando os olhares e os murmúrios, os dias foram normais. Gandam me contou tudo sobre a cidade e me mostrou o que ela possuía de melhor a me oferecer. As pessoas eram gentis, apesar de eu poder sentir o medo em suas vozes. Compramos algumas quinquilharias inúteis, porem muito legais, como um tal de espelho, que era pedaço de prata polida que refletia minha imagem. Também compramos coisas muito uteis, como uma pedra para amolar novinha e um objeto mágico que, de acordo com o vendedor, vinha do futuro e tinha a incrível capacidade de criar fogo apenas girando uma roda metálica localizada embaixo de uma tampa que se abria emitindo “clink”. Porem o vendedor nos alertara que o aparelho, conhecido por um nome diferente, algo como zibbo, possuía um numero limitado de chamas, podendo ser utilizado somente algumas dezenas de vezes. Mesmo assim, fazer fogo tão rápido e sem gastar nossas energias já era muito útil quando você esta há meses na floresta ou em uma emergência.

Ao final de mais um dia de passeio a noite já cobria a cidade e, assim como na floresta, Gandam me disse que a noite poderia ser perigosa.

Retornamos ao hotel e, como no dia seguinte iríamos seguir viagem para só Gandam sabe onde, decidimos dormir o máximo possível. Foi ai que os sonhos vieram.

 Eu estava em uma taberna, o tipo de lugar em que todo tipo de gente se encontra pra fazer todo tipo de coisa enquanto bebe. No meio de toda aquela confusão uma coisa me chamou a atenção. Um homem de meia idade, vestido de maneira simples, mas que não diminuía seu ar de nobreza, entrava no salão. O homem foi até o bar e, em voz baixa, disse ao atendente:

-Saudações. Trago comigo uma mensagem, você sabe onde posso encontrar O Mensageiro?     

- E que tipo de mensagem é essa, caro peregrino?

- Um beijo. 

Por mais estranho que possa parecer, eu havia entendido, e o taberneiro também, pois ao som dessas palavras sua expressão mudou. De descontraído e desinteressado, agora era um homem sério e pensativo.

Ele analisou, calma e profundamente, o homem à sua frente e, apos um breve silencio, disse:

- Fale com o velho.

Fez um sinal com a cabeça na direção de um velho que se sentava em um canto qualquer do salão.

O homem caminhou até a mesa do velho.

Era uma mesa simples, limpa e bem iluminada. O velho, que aparentava estar um pouco bêbado, trajava roupas simples. Sua barba mal feita, as unhas sujas e o mau cheiro apontavam que ali, na frente do homem que havia viajado tanto para encontrar O Mensageiro, estava um bebum qualquer.

Decepcionado, o homem decidiu arriscar, afinal de contas, não tinha mais nada a perder, havia chego até ali e a mensagem devia ser dada.

- Com sua licença meu senhor, posso me sentar?

- Hihihihaha. Mas é claro meu lindo jovem. Já faz tanto tempo desde a ultima vez que alguém falou comigo que eu já pensava que somente estas moscas eram minhas amigas. Quer saber o nome delas?

Sem saber se o taberneiro o havia enganado ou se aquele velho poderia realmente levá-lo até o mensageiro, o homem decidiu continuar a conversa.

- Vou lhe pagar uma bebida. E então, meu caro senhor, vamos brindar com licor de tâmara?

Esse era outro código.

- Hihihihaha, é assim que se fala meu jovem. Taberneiro, mais uma rodada, na conta do rapaz aqui!

- Por que me chama de ' meu jovem' - disse o homem um pouco incomodado - já tenho mais de 40 anos!

- Filho, na minha idade somente as árvores são mais velhas do que eu. Mesmo que você tivesse 100 anos, ainda te chamaria de meu jovem... Hihihihaha, vamos beber!

O homem estava desconcertado. Aquele velho dizia ser tão velho quanto o próprio tempo e mesmo assim não respondia os códigos corretamente. Talvez ele fosse só um velho bêbado, talvez tudo tivesse sido em vão.

- Não quero te fazer perder mais tempo meu jovem - disse o velho, apos tomar um gole de licor - afinal de contas, você tem uma mensagem para entregar!

O homem não podia acreditar! Bem ali, na sua frente, estava o Mensageiro.

- Então o senhor é o Mensageiro, deve confessar que o julgava ser bem diferente.

- Nem tudo é o que parece meu jovem, na minha profissão as aparências são muito importantes. Mas, agora que já sabe quem eu sou, deixe-me saber quem você é.

 O velho girou um anel que estava em sua mão direita, e que até agora havia passado desapercebido, de modo que a pedra ficasse virada para baixo, e estendeu a mão para cumprimentar o homem. Ele sabia que o Mensageiro podia ser perigoso, mas tinha de arriscar.

Ao tocar a mão do velho, um calafrio lhe percorreu o corpo. Ele sabia que agora, de algum modo, o velho sabia tudo sobre ele!

- Agora que já nos conhecemos podemos tratar de negócios. A quem a mensagem se destina?

- Uma poderosa feiticeira atormenta meu povoado. Ela precisa ser detida.

- Meus serviços são caros, rapaz.

- Dinheiro não é problema - disse o homem pondo um pequeno pacote em cima da mesa. Ela tem que morrer!

- Acalme-se meu jovem.

O velho deu uma olhada discreta dentro do pacote.

- Esta noite a mensagem será dada!

O cenário se desfez do uma nuvem de fumaça deixando somente as trevas. Do meio da escuridão surgiu um velho cego. Ele vestia roupas rasgadas e se apoiava em uma bengala.

- A proteção de seus pais esta chegando ao fim. O eclipse se aproxima. Antes dele você tem que ser iniciado. Você tem que despertar Brazem. Cuide de seu coração Brazem.

- Brazem... Brazem...!

- ACORDAAAA!

- AAHHHHH

- Hahahahaha

- Gandam, você perdeu a cabeça?!

- Você não acordava! E nos temos que ir.

- E era mesmo necessária você me acordar gritando desse jeito?!

- Não, mas foi muito divertido! Ande logo garoto, nos temos que partir.

- Pra onde nos vamos mesmo?

- Eu preciso passar no templo da luz, eu tenho que me consultar com os sábios a respeito de... Uns assuntos ai, nada de mais.

- Templo da luz?

- É, o templo élfico da luz. É mesmo, nunca te contei sobre os templos. Há muitos anos atrás, no principio do reinado, antes mesmo das grandes guerras, os elfos governavam. Eles eram muito sábios e tinham poderes que hoje nem imaginamos. Nessa época remota, eles construíram os grandes templos. Ninguém sabe ao certo quantos templos foram feitos, por que, onde estão e qual seu poder ou domínio.  Dizem que, cada pessoa, conhece somente os templos que deve conhecer e que é possível saber como uma pessoa é pelos templos que ela conhece. Existem templos como o da água, o do fogo, o do conhecimento e o da luz. Também existem templos mais obscuros como o templo da dor, o das trevas e o da morte.

- Quantos templos você conhece Gandam?

- Quatro.  O templo dos guardiões do bosque, onde fui treinado nas artes de combate dos elfos; o templo da magia, onde aprendi as artes mágicas em geral; o templo dos sábios e o templo da redenção.

- Redenção? Você esta tentando se redimir de algo?

Ao ouvir esta pergunta sua expressão mudou. Seu olhar, agora sombrio, se perdeu por alguns instantes em seus próprios pensamentos.

- Se arrume logo - disse ele se levantando - temos que ir - e saiu antes que eu pudesse dizer qualquer coisa.

Pensando bem, eu não sabia quase nada a respeito dele. Dos seus 140 anos, eu mal conhecia os últimos 20! Nossas conversas eram quase sempre a respeito do meu treinamento: como sobreviver na selva, como utilizar armas, como fazer certas magias e os mistérios da natureza. Quando falávamos sobre outra coisa, eram sempre assuntos triviais, nada com muita importância.

Porém eu sabia que podia confiar nele, meus pais confiavam tanto que me confiaram a ele, e, pra mim, isso já era suficiente.

Decidi não tocar mais naquele assunto. Quando ele estivesse pronto, e se ele quisesse, ele me contaria.

Como ordenado por Gandam que, apesar de meu amigo, ainda era meu mestre, terminei de arrumar minhas malas e partimos.

Ainda dentro da cidade, alguns minutos se passaram em total silencio. Ele não parecia nervoso ou chateado, só estava quieto, perdido em seus pensamentos como ficava às vezes. Eu, ao contrário, estava me sentindo péssimo.

            Sabia que havia tocado em um ponto muito sensível, uma ferida aberta. Poderia até ter ido longe de mais, afinal de contas, ninguém procura redenção por nada.

- Espere aqui - disse ele finalmente rompendo com o silencio - tenho que comprar suprimentos. Será uma longa viagem até nossos destinos.

Pelo jeito que ele falava parecia que ele se referia aos nossos destinos no sentido literal, aos objetivos de nossas vidas, não ao lugar onde devíamos ir. Porém, como eu ainda me sentia mal pelo ocorrido no hotel, achei melhor não comentar nada.

Eu estava em uma praça bem mais simples que as outras que eu havia visto pela cidade. Esta não possuía inúmeras árvores em um gramado repleto de mesas de madeira.  Era algo como um círculo de terra com 100 metros de diâmetro. Em baixo de sua única árvore, que mal conseguia tapar os raios de sol, havia apenas um único banco, feito a partir de um tronco. Porém, o que mais me chamava à atenção era o velho que nele se sentava.

O velho usava uma túnica simples, velha e um pouco gasta. Segurava uma bengala de bambu e, apesar de estar com os olhos fechados, sua cabeça apontava na minha direção. Movi-me alguns passos para o lado e ele me acompanhou com a cabeça. Agora eu tinha certeza de duas coisas: ele era cego; e estava olhando pra mim!

No minuto seguinte não havia mais nada! Nem Gandam, nem viagem, nem passado e nem segredos. Só havia eu e o velho.

Eu estava cara-a-cara com ele, perto o suficiente para saber que eu o conhecia. E é ai que estava o problema! Eu fui criado por um elfo viajante, no meio de uma floresta inóspita, como poderia conhecer aquele velho?!

Quando ele começou a falar, eu imediatamente me lembrei de onde o conhecia. As marcas da idade e a expressão em seu rosto, as roupas simples e rasgadas e a bengala de bambu. Tudo se encaixava. Era ele. Era o velho do meu sonho!

Desde a conversa com Gandam, eu havia me esquecido do sonho. Agora, enquanto acordado, a realidade fazia questão de me lembrar dele. Porém, o mais assustador não era ver um sonho vivo em minha frente, era ouvir o que ele tinha a dizer.  Apesar de ele mover a boca, suas palavras pareciam sair de dentro da minha cabeça.

- A aurora das trevas se aproxima. Seus pais falharam, Ele te encontrou. Para renascer para a vida e não para a morte você deve encontrar os sábios do destino antes do Sol Negro. Mergulhe até o terceiro anel da espiral dos mundos...

- Brazem?

Ao ouvir a voz de Gandam eu parecia sair de algum tipo de transe. Eu ainda estava no mesmo lugar onde ele havia me dito para esperar. O velho também estava no mesmo lugar, porém parecia nem notar a minha presença.

- O que foi Brazem? Parece que você viu um fantasma - O tom calmo e brincalhão já estava de volta em sua voz, ele não estava mais chateado.

- Gandam, eu tenho que te contar uma coisa. Na noite passada eu sonhei com aquele velho. E agora, minutos antes de você voltar, ele estava aqui me falando coisas sobre um sol negro e meus pais.

Nós olhamos para o velho e, para nossa surpresa, ele tinha sumido! Olhamos em volta. Porém ele não estava em lugar nenhum. Era impossível para um velho de bengala sumir tão rapidamente.  Aquela parte da cidade estava quase deserta e qualquer rua que ele pudesse ter entrado estava a uma boa distância da praça. Uma distância que, mesmo para mim, mesmo andando rápido, levaria mais tempo para vencer do que o tempo que nos estávamos ali conversando. Imagine então para um velho de bengala!

- Brazem, eu entrei nessa loja, perguntei se eles tinham uma coisa e, como eles não tinham, eu saí. Não se passaram nem 5 minutos. Você tem certeza de que isso realmente aconteceu?

- Você acha que eu estou inventando?!

- Não Brazem, eu acho que você pode ter tido algum tipo de visão ou coisa parecida. Seja lá o que for, era poderoso. E isso não é nada bom.

- Como assim? O que isso quer dizer?

- Quer dizer que nós temos que chegar ao templo da luz o mais rápido possível.

- E por que você acha que era poderoso?

- Porque eu vi também.

Não sei o porquê, mas o tom de sua voz me deixou preocupado.

Enquanto nos dirigíamos para a próxima cidade eu contei tudo o que eu havia sonhado e o que o velho me dissera, o que parecia fazer tanto sentido para Gandam quanto pra mim. Porém parecia que ele sabia de mais alguma coisa, sempre que esses assuntos surgiam, ele me ouvia com atenção e certa preocupação, mas sempre que eu perguntava alguma coisa ele sempre dava respostas vazias e mudava de assunto, ou simplesmente dizia que não sabia.

E assim passava o primeiro dia. Gandam decidiu revisar alguns de meus ensinamentos sobre combate, magia e filosofia. Enquanto caminhávamos, ele me mandava ficar em diferentes posturas de ataque e de defesa e me ensinava sobre diferentes estratégias de batalha. Ele também me fez praticar algumas magias e feitiços que eu já sabia e me ensinou alguns novos. Ele me perguntou sobre moral, orgulho, honra e ódio. Essa ultima parte me deixou meio confuso, mas o mestre era ele, não eu, e pra ele isso deveria fazer algum sentido, eu acho. 

Ao cair da noite nós montamos acampamento e Gandam sugeriu que fôssemos dormir cedo, pois o dia seguinte seria cheio. Mal sabia ele que minha noite também seria.

O sonho começou em uma floresta tão densa que a luz da lua mal conseguia atravessar a copa das árvores. O cheiro de terra molhada, o barulho das cigarras, a umidade alta da noite fria, todos os sinais apontavam para uma noite tranqüila

Protegido pelas trevas da noite, em um acampamento montado nos restos de uma árvore oca, uma pessoa se esquentava perto de uma fogueira acesa em um buraco de cerca de um metro de profundidade por 50 centímetros de largura, feita de tal modo que somente o calor e não a luz da fogueira saísse do buraco.

O lugar era o melhor esconderijo que eu já tinha visto. Oferecia conforto sem comprometer a notoriedade. Parecia ter sido feito por um profissional na arte de ser invisível quando quisesse. Ao me aproximar da pessoa pude perceber que era um velho. Eu já estava ficando irritado. Parecia até que os velhos estavam me perseguindo. Até agora metade das pessoas que eu havia visto eram velhos sinistros!

Mas havia algo de diferente com este. Ou devo dizer algo de familiar?! Ele era diferente do velho cego, mas eu também o conhecia. Só tive tempo de pensar em quantos velhos seria possível eu conhecer tendo passado minha vida toda na floresta com Gandam, antes que o velho levanta-se e a pouca luz da fogueira que escapava do buraco ilumina-se seu rosto. Agora eu o reconhecia. Era o velho dos meus sonhos! Não o cego, o outro, da taberna. Ele se aproximou mais ainda da fogueira, mas agora não me restava mais dúvidas. Realmente era ele, era o Mensageiro.

Ele sussurrou algumas palavras e uma rajada súbita de vento o atingiu. Enquanto suas roupas se agitavam ao vento, elas mudavam de forma. O tecido de suas roupas, que antes era de um algodão grosso feito para proteger do frio, se transformava em um tecido leve e flexível, que mantinha a temperatura do corpo sem comprometer a flexibilidade. Do seu peito, braços, cintura e pernas apareciam cintos, bolsas e compartimentos para os mais diversos tipos de itens e armas, desde frascos de poções até espadas e lâminas de arremesso.

Sua túnica simples se transformava em um sobretudo diferente de tudo o que eu já havia visto. Era um casaco grosso que ia dos pés a cabeça, coberto de desenhos e símbolos que eu desconhecia.

O vento parou. Em uma questão de segundos o velho que parecia não oferecer perigo a uma mosca, agora tinha um ar sinistro a sua volta.

Agora eu entendia o que era o mensageiro, ele era um assassino. Sua mensagem, o beijo, era o beijo da morte.

Tentei ver melhor seu rosto, porém cada vez que ele movimentava a cabeça, seu rosto mudava! Parecia que de cada ângulo que se olhava ele possuía um rosto diferente. Feições, traços e formas diferentes surgiam cada vez que ele era iluminado pela fogueira. A única coisa que permanecia a mesma era a cor de seus olhos. Durante o tempo que nós permanecemos na cidade eu vi olhos de todas as formas e cores. Porém, eu nunca havia visto olhos como aqueles.

Sua íris era de um branco-azulado que lembravam, não olhos, mas pequenos cristais de quartzo adornados por uma fina borda negra com traços firmes, mais grossos na base e que afinavam na medida em que iam de encontro à sua pupila, sem tocá-la.

Pareciam duas jóias, feitas à mão pelo mais habilidoso dos ourives, de tamanha sua beleza.
           
          Porém, apesar dos olhos, nada mais tinha essa aparência e encanto. O homem possuía uma presença forte, autoritária e superior. Somente por vislumbrar sua figura eu já me sentia fraco, inútil, digno de pena até. E essa era a melhor parte.

Uma aura sinistra o acompanhava, o ar era mais frio e seco ao seu redor. A cada vez que eu respirava, parecia que um pouco de mim deixava meu corpo junto com o ar que saia de meus pulmões. Era como se, simplesmente por estar na presença dele, eu morresse aos poucos.            Ele retirou de um de seus bolsos, um pedaço de papel enrolado. Ele abriu o papel e passou cerca de dois minutos observando o que parecia ser o mapa daquela região.

Graças às aulas de cartografia que eu tivera com Gandam, eu fui capaz de ler o mapa. Nos estávamos em uma floresta que se estendia por mais vinte quilômetros até chegar a um vasto campo aberto com cerca de dez quilômetros, que nos separava da cidade. Próximo à cidade, havia um castelo circulado no mapa, o que devia ser objetivo do assassino.

 - Tenho mais três horas antes da meia-noite - disse ele - até lá, tudo isso terá terminado.

Ele falava como se, em menos de três horas, ele fosse atravessar a floresta, a campina, chegar até o castelo e fazer o que tinha de fazer. O que era claramente impossível.

Levaria, no mínimo, um dia e meio para ele cruzar a floresta de dia. Durante a noite, com as raízes das árvores, a vegetação densa e o terreno irregular, ele levaria no mínimo dois dias. Foi ai que eu percebi o quanto estava errado a respeito daquele homem.

Ele enrolou novamente o mapa e o guardou em um de seus bolsos.
Durante os cinco minutos seguintes ele ficou parado, de olhos fechados e completamente mudo. Cheguei até a pensar que estivesse fazendo algum tipo de ritual. Porém, a verdade era bem mais perturbadora.

- Deuses, por favor, perdoem o que estou prestes a fazer.

Ele estava rezando! Como um assassino de aluguel pode pedir perdão por matar alguém.

Por mais alguns instantes ele permaneceu ali, em sua prece silenciosa. Sua concentração era tanta que, durante esse tempo, pude notar que sua aura maligna havia desaparecido.

Ele estendeu o braço na direção da fogueira e, ao fechar sua mão, as chamas se apagaram. Em seguida, todo seu acampamento começou a se desfazer em galhos, folhas e pedras. Era com se tudo que houvesse ali fosse feito a partir da floresta.

Ele vestiu o capuz do casaco fazendo com que seu rosto transmorfo fosse quase todo coberto pelas sombras, com exceção de seus olhos que, apesar de não brilharem, eram claramente visíveis. Parecia que as trevas nem sequer ousavam tentar cobrir seus olhos, por mais densas e poderosas que fossem principalmente durante a noite.

            - Esta na hora!

            Com essas palavras, a energia que ele emanava voltou. Porém, comparada a energia de agora, a anterior não era nada. Eu me sentia completamente impotente, fraco e indefeso. Parecia que o ar à minha volta queria me esmagar. Meu corpo havia se tornado minha prisão. Estava tão pesado que eu tinha a sensação de que meu próprio peso me mataria.

Era como estar na presença do anjo da morte em pessoa!

O homem deu alguns passos na direção da floresta a saltou para as trevas.

Como um tubarão, nadando imponente e ameaçador pelo oceano, ele nadava nas trevas da floresta cortando a noite como um vulto negro. A velocidade que ele se movia era sobre-humana. Eu podia sentir a força do vento contra o meu rosto enquanto ele desviava das árvores com giros em parafuso ou com pequenos movimentos de suas mãos e pés, alterando sua rota enquanto planava, com a habilidade de um ginasta olímpico.

Em vinte minutos ele cruzou vinte quilômetros de floresta densa. Mais dez minutos e ele chegou ao castelo.  

Do lado de fora era possível notar uma única luz acesa, no terceiro andar de uma das três torres do castelo. Ele entrou por uma janela do segundo andar que estava aberta. Com cautela ele atravessou algumas salas e corredores. Apesar de vazio, o castelo não tinha nenhum tipo de armadilha ou segurança, o que demonstrava uma enorme confiança de seu senhor. O assassino subiu uma escada e se deparou com a porta entre aberta do aposento iluminado.

Cuidadosamente, com uma de suas lâminas como espelho, ele espiou o interior do quarto. Pude ver pouca coisa e identificar menos coisas ainda. Algo como uma mobilha antiga, uma cama grande e umas estantes com objetos que eu não pude distinguir compunham a paisagem do quarto.

Um pequeno ruído veio de dentro do cômodo e foi o suficiente para que ele desse um salto para traz e se escondesse nas sombras enquanto a porta se abria vagarosamente.

O que ele viu lá dentro foi o bastante para deixá-lo tão desconcertado que sua aura maligna mais uma vez se dissipou, e em seu lugar, um olhar de espanto se desenhou em sua face.

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